Mais do que escolher entre CLT ou trabalho autônomo, o desafio do trabalhador brasileiro hoje é encontrar emprego digno, renda suficiente e condições reais de futuro.
Flexibilidade virou palavra da moda, mas não paga boletos nem garante futuro. Enquanto o discurso dominante vende autonomia como sinônimo de liberdade, os dados mostram uma realidade bem diferente para milhões de brasileiros.
Pesquisas recentes revelam que, apesar da propaganda intensa em favor do trabalho autônomo e “sem patrão”, a maioria dos trabalhadores ainda enxerga na CLT a segurança que o mercado atual não entrega.
O paradoxo do mercado de trabalho brasileiro
O mercado de trabalho vive um momento que parece contraditório. De um lado, cresce a narrativa de que o emprego formal estaria “em declínio”. De outro, os próprios trabalhadores dizem que preferem a carteira assinada.
Levantamento da Randstad, divulgado pelo jornal Valor Econômico em 10 de novembro de 2025, aponta que entre jovens com menos de 30 anos:
-
44% priorizam flexibilidade
-
37% buscam crescimento pessoal
-
35% colocam o salário como fator decisivo
Flexibilidade importa, mas não aparece sozinha no topo das prioridades.
Outro estudo, do Datafolha, indica que 59% dos brasileiros dizem preferir trabalhar por conta própria, número que chega a 68% entre jovens de 16 a 24 anos.
À primeira vista, o recado parece claro: a CLT estaria perdendo espaço. Mas os dados não param por aí.
Quando o trabalhador fala sem filtro
Pesquisa realizada pela Vox Populi, encomendada por centrais sindicais e analisada em parceria com o Dieese, revela um dado que desmonta a narrativa dominante:
👉 56% dos trabalhadores autônomos que já foram celetistas afirmam que gostariam de voltar a ter carteira assinada.
Ou seja: a preferência pela autonomia nem sempre é uma escolha real.
Empreendedorismo de necessidade: a escolha possível, não a ideal
A pesquisa aponta que muitos trabalhadores acabam migrando para o trabalho informal ou autônomo empurrados pelas condições do mercado, e não por vocação empreendedora.
Entre os principais problemas relatados para conseguir um bom emprego estão:
-
Salários baixos (44,5%)
-
Exigências excessivas (38,7%)
-
Baixa valorização profissional (25,5%)
Esse conjunto de fatores cria o chamado empreendedorismo de necessidade: quando a pessoa abre mão da CLT não porque quer, mas porque não encontra alternativas viáveis.
Flexibilidade sem renda vira armadilha
O avanço dos aplicativos de entrega, transporte e serviços, somado aos efeitos da reforma trabalhista de 2017 e da terceirização, ampliou a oferta de trabalho “flexível”. Mas flexível para quem?
Segundo Nivaldo Santana, secretário-adjunto de Relações Internacionais da CTB, o problema central não é a rejeição ao emprego formal, mas o empobrecimento dele.
Ele cita dois exemplos concretos:
-
O setor supermercadista tem dificuldade para preencher cerca de 350 mil vagas abertas
-
O Brasil perdeu 1,2 milhão de caminhoneiros nos últimos dez anos
Em ambos os casos, a causa principal é a mesma: salários baixos e jornadas longas.
“Com esses rendimentos, migrar para outras áreas mais flexíveis vira uma opção de sobrevivência”, avalia Santana.
O problema não é a CLT — é o que fizeram com ela
Apesar do discurso recorrente de que “ninguém mais quer carteira assinada”, os dados mostram que o desejo por direitos continua forte. O que afastou parte dos trabalhadores do emprego formal foi:
-
Remuneração insuficiente
-
Falta de perspectiva de crescimento
-
Jornadas extensas
-
Perda de direitos históricos
Segundo Sérgio Nobre, presidente da CUT, muitos autônomos são, na prática, trabalhadores precarizados.
“Eles são empurrados para a informalidade por baixos salários, exigências desproporcionais e jornadas extensas”, afirma.
O que isso significa para quem busca emprego ou planeja a carreira
Para quem está decidindo os próximos passos profissionais, o recado é claro:
-
Autonomia não é sinônimo automático de liberdade
-
Flexibilidade sem renda e proteção vira risco
-
CLT ainda representa estabilidade, direitos e previsibilidade
Antes de “largar a carteira”, vale olhar além do discurso motivacional e analisar:
-
Renda mensal real
-
Custos invisíveis (saúde, previdência, períodos sem trabalho)
-
Jornada efetiva
-
Perspectivas de longo prazo
Um debate que precisa ser honesto
O Brasil não vive uma rejeição em massa à CLT. Vive, isso sim, um mercado de trabalho que oferece empregos formais cada vez piores, empurrando trabalhadores para escolhas que parecem livres, mas não são.
Enquanto salários continuarem baixos e exigências altas, a preferência pela autonomia seguirá sendo menos uma opção e mais uma estratégia de sobrevivência.
